Qual o significado do termo “Erro Crasso” e como ele surgiu?

Ditados populares são difíceis de terem sua origem confirmada, mais difícil ainda a data em que surgiram. Uma das exceções é quando a pessoa comete um erro Crasso, que é um erro absurdo com consequências intensas e inesperadas. Com certeza muitos já ouviram esse ditado, e com certeza também muitos não sabem sua origem e nesta publicação falaremos um pouco deste ponto curioso, pois vai além de um simples termo que refere-se a um erro.

Para iniciarmos, Crasso é o sobrenome de Marco Licínio Crasso, que de forma resumida tinha vida de treinos militares e estratégicos bem ativa e intensa, foi responsável por várias instruções militares por um bom tempo, assim como sua atuação na política de Roma quando esta era uma república e chegou a ser cônsul por duas vezes, ganhando muita fama e influência quando liderou Roma a vitória contra a Revolta de Espártaco. Crasso era ambicioso e inteligente, assim como determinado, e graças a isso, ainda se tornou o homem mais rico da história de toda a Roma através de espólios de guerras e do mercado imobiliário e ainda detinha os maiores exércitos sob seu comando e folha de pagamento.

Agora que sabemos um resumo do nome que deu origem ao ditado popular, vamos entender o termo “erro” que o precede.

Para fins de entendimento do termo, basta sabermos que ambição de Crasso o fazia correr atrás de tanta honra e reconhecimento que seus outros “rivais” políticos, Pompeu e Júlio Cesar. Isso fez com que a competição para Crasso fosse elevada ao extremo quando recebeu o governo da Síria, que havia recebido influência política de Roma e guerreado por várias vezes como em qualquer outro cenário da época, perdendo no fim, território e cedendo espaço aos Romanos. Crasso usou o governo da Síria como desculpa para querer mostrar seu valor como comandante militar mesmo que não detivesse o título oficialmente, e com isso, queria declarar guerra ao império Parta.

Iludido com o poder da infantaria romana que esmagava inimigos, ignorou logo de cara em sua campanha pela Síria dois avisos de sua equipe de conselheiros e estrategistas: por onde marchar com suas tropas para não ter problemas indesejados no caminho com o terreno, com o próprio inimigo e qualquer outro obstáculo indesejado que pudesse surgir e o tipo de inimigo que enfrentaria. Crasso escolheu um caminho mais curto ao invés do longo pois parecia mais óbvio, porém, na lógica paradoxal da guerra, nem sempre o caminho mais curto entre dois pontos é uma linha reta. O fato da infantaria romana que é um exército regular vencer constantemente exércitos irregulares, criou uma imagem sedutora a homens ambiciosos como Crasso de que são invencíveis.

Crasso marchou com quase 38 mil homens, sendo 500 arqueiros, 2000 cavaleiros leves gauleses e o restante de infantaria e seu clássico equipamento: cota de malha, bracelete e tornozeleira de bronze, escudo torre e espada e lança de uma mão. Já o exército Parta, liderados nesta batalha chamada de Batalha de Carrhae por Surena, contava com uma incrível arma de guerra: os catafractários: arqueiros montados.

A arquearia montada não é novidade em 53 AC, ao redor do mundo e ao longo da história, a cavalaria sofreu tantas ou até mais mudanças de armamento e táticas quanto a infantaria, e naquela região a arquearia montada era muito bem utilizada por décadas e décadas.

Crasso iniciou o conflito com suas legiões romanas marchando sob terreno irregular, arenoso e destruído, o que naturalmente já atrapalhou suas tropas a se movimentar com a eficiência planejada e desejada e as cansou. Quando iniciou o combate contra os partas, que possuíam somente 9000 arqueiros montados para combate, que também usavam lanças de arremesso e 1000 cavaleiros para reposição de flechas, pois o exército parta não detinha uma logística robusta e eficiente de suprimentos para manejar guerra por longos períodos, o que não era o cenário nesta batalha, Crasso deu a história romana uma das piores derrotas por toda a eternidade.

Graças a caminho escolhido por Crasso que não era o ideal nem o recomendado anteriormente, e a guerra de desinformação promovida durante a campanha por espiões do império Parta, batedores romanos foram emboscados e mortos por batedores partas e isso fez com que Crasso marchasse exatamente onde Surena queria. Com o início da batalha, a formação em quadrado clássica da infantaria romana se provou muito forte para os cavaleiros partas a penetrarem com ataques básicos de se aproximar, atirar e fugir. Entretanto, a infantaria também não conseguia fazer nada. Com a repetição dessa simples abordagem, os números de atingidos por flechas começou a subir, e isso era um mal sinal.

Crasso ordenou que seu filho, o general Pubius avançasse para encurtar distância com aproximadamente 1.300 cavaleiros leves e os 500 arqueiros, mas isso foi uma má ideia, de novo, iniciando pelo equipamento e experiência dos cavaleiros gauleses que lutavam nas florestas da Europa com inimigos próximos e pesados, não em terreno arenoso contra cavaleiros leves cujo alcance dos disparos era longo.

Crasso não estudou o inimigo e não ouviu seus conselheiros, ou seja, ele descobriu da pior forma o “Tiro Parta”, técnica que consiste em bater em retirada dando a idéia de que estão fugindo, logo, não estão lutando, mas na verdade, o cavaleiro vira-se 180º, pra trás, e continua disparando suas flechas. Literalmente ele ataca enquanto foge. Mas Crasso ainda assim achava que não teria problema pois as flechas acabam, claro, mas os partas tinham 1000 cavaleiros encarregados apenas de cavalgarem ao lado dos combatentes e encherem suas aljavas, ou seja, os arqueiros montados nunca ficavam sem munição. Foi um massacre esse avanço, tanto que resultou na morte de seu próprio filho.

Após essa investida fracassada, os arqueiros montados voltaram a fazer chover flechas na formação quadrada dos romanos. A cadência de tiro dos arqueiros partas era altíssima, pois a formação agrupava os seus alvos, logo, não era preciso mirar, então os disparos não eram específicos em um alvo mas sim em saraivadas. O resultado se mostrou completamente eficaz até que reduziu as paredes de escudos.

Agora a tática simples ficou de lado e Surena ordenou outra para finalizar de vez o conflito e garantir sua vitória: o Carrossel.

Essa técnica consiste em basicamente ficar rodeando inimigo e disparando contra ele, já que o alcance é maior, eu ataco mas não sou atacado. Quem controla a distância controla o combate. Isso resultou em tantas perdas romanas que Crasso aceitou um pedido de negociação de Surena no dia seguinte, pois durante a noite o exército parta teve que se retirar pois a coordenação que suas técnicas exigiam se tornavam inviáveis no escuro.

No dia seguinte ao se preparar para sair em seu cavalo, um de seus oficiais suspeitando de uma armadilha já que o trabalho de desinformação corria solto, tentou impedi-lo, isso fez Crasso cair do cavalo e causar um alvoroço que assustou Surena, que revidou atacando de vez, matando Crasso. Há historias que contam que Surena mandou derreter ouro e derramar goela abaixo do cadáver de Crasso como sarcasmo ao seu desejo insaciável por ouro.

E foi assim que todos em Roma passaram a zombar de Crasso em teatros e debates políticos, principalmente usando o termo “erro Crasso” toda vez que queriam falar sobre erros grotescos que manchariam a imagem de Roma, a da própria pessoa que cometeu o erro e que sua falha miserável seria lembrada eternamente como motivo de piada e incompetência.

Referências:

https://historiarex.com/e/en/176-battle-of-carrhae-53-b-c/
https://www.historynet.com/roman-persian-wars-battle-of-carrhae/
https://www.ancient.eu/article/1406/battle-of-carrhae-53-bce/
https://gatesofnineveh.wordpress.com/2011/09/20/the-battle-of-carrhae/

Sobre o Autor

Lucas Parrini
Apresentador do programa “Café com Pólvora” e Diretor do Instituto Defesa no Estado do Rio de Janeiro.